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Compras milionárias e em dinheiro vivo: como Gasparini atuava, segundo o Gaeco

O JC teve acesso à parte do processo sigiloso em que o MP denuncia o ex-presidente da Cohab Edison Gasparini Júnior


Por: JCNET

André Fleury Moraes


Vários imóveis, dezenas de negociações e milhões em dinheiro vivo. Foi assim, segundo o Ministério Público (MP), que o ex-presidente da Cohab de Bauru Edison Bastos Gasparini Júnior e família adquiriram um patrimônio que, embora robusto, cresceu silenciosamente.

Hoje, porém, todos os bens foram colocados em xeque pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo (Gaeco), um braço do MP, para quem a evolução de bens dos Gasparini tem origem ilícita a partir do desvio de R$ 54 milhões dos cofres da companhia habitacional.

A defesa do ex-presidente e de seus familiares nega os desvios e diz que a "denúncia confunde conceitos técnicos primários sobre o delito de lavagem de dinheiro" (leia mais nesta página).

Inéditas, as informações constam das primeiras 97 páginas às quais o JC teve acesso da denúncia do MP com relação aos crimes de organização criminosa, ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro no caso Cohab. A ação corre sob segredo de Justiça.

Respondem ao processo o ex-presidente da companhia Gasparini Júnior, sua mulher Izabel, sua filha Mariana, sua sogra Maria Giacometo, o ex-diretor da Cohab Paulo Gobbi e o ex-administrador das propriedades rurais da família Cleberson Rocha. O Gaeco busca responsabilizar todos eles - cada um à sua medida - pelo rombo milionário descoberto nos cofres da companhia.

A família Gasparini adquiriu propriedades valiosas a partir de 2007, ano em que os desvios teriam se iniciado. Somente em propriedades rurais em nome da esposa, sogra e filha, por exemplo, o MP encontrou nove bens - avaliados, ao todo, em R$ 4,6 milhões (sem correção monetária).

A última compra aconteceu em 2018: uma fazenda de R$ 2,6 milhões, cuja negociação envolveu um pagamento de entrada de R$ 200 mil - em espécie, segundo o Ministério Público, porque este era o 'modus operandi' do que o Gaeco classifica como uma organização criminosa.

O valor foi entregue aos antigos donos do imóvel pela esposa do ex-presidente da Cohab Izabel Gasparini, nas dependências de um escritório.

Já a segunda parcela, de R$ 300 mil, e também entregue em dinheiro vivo, teria sido paga num peculiar ponto de encontro: um posto de gasolina na rodovia Bauru-Marília. Na ocasião, segundo os depoimentos, Izabel levou os valores em espécie e estava acompanhada do então administrador das propriedades rurais da família, Cleberson Rocha.

PROPRIEDADES

Para além da fazenda negociada num posto de combustível, o Ministério Público conseguiu rastrear não só as propriedades compradas pelos Gasparini - mas também os corretores ou donos de imóveis responsáveis pela venda.

O primeiro bem rural, uma chácara, foi adquirido em 2009. O corretor responsável pela venda disse ao Gaeco que toda a negociação foi tratada com Izabel Gasparini, mulher de Edison, e que ela indicou o nome de sua mãe, Maria Luiza, para constar na escritura pública do imóvel. A chácara custou R$ 160 mil. O pagamento de entrada, R$ 115 mil, foi pago em dinheiro vivo.

Outra propriedade, o Sítio São João, também negociada por Izabel, custou R$ 150 mil na época da aquisição (2009) e foi igualmente pago em espécie. O imóvel foi novamente registrado em nome de Giacometo, alguém que o corretor "não tem noção de quem seja", segundo seu depoimento ao MP.

O mesmo 'modus operandi', segundo o Gaeco, se sucedeu às demais propriedades. De acordo com os promotores, as poucas mudanças envolviam as pessoas em nome de quem os bens eram registrados. O pagamento, porém, aconteceu em dinheiro vivo na maioria das vezes, acrescenta.

Segundo o Ministério Público, a negociação em espécie era o primeiro passo para reintroduzir ao mercado os valores desviados dos cofres da Cohab. Depois, a rentabilidade das propriedades se tornava "lícita".

ADMINISTRAÇÃO

A família constituiu sete empresas ao longo dos anos para administrar cada setor, do gado à agricultura. O primeiro CNPJ foi aberto meses depois dos primeiros desvios, aponta o MP. Era a "Edison Bastos Gasparini Júnior", ativa até 2013 e que foi declarada no imposto de renda do ex-presidente da Cohab. As demais empresas, por sua vez, viriam em nome de terceiros.

"Na verdade, a declaração de atividade pecuária não poderia mesmo continuar em nome de Edison. Com o crescimento dos desvios [da Cohab], que ocorria a cada ano, era de se imaginar que a criação de bovinos, uma das maneiras pelas quais a família lavava dinheiro, tomasse proporções cada vez maiores", explica o Gaeco.

E assim aconteceu. Em 2015, Izabel Gasparini se tornou protagonista das atividades pecuárias da família. "Sintomaticamente, a partir deste mesmo ano, os desvios de recursos tiveram um sobressalto extraordinário", prossegue o Ministério Público. Um levantamento feito pelo Gaeco aponta que, se em 2014 Gasparini desviou R$ 4,6 milhões da companhia, em 2015 o valor praticamente dobrou: R$ 7,6 milhões.

Embora o ex-presidente da Cohab tivesse se afastado das propriedades rurais no papel, já que sua esposa passou a ministrar os negócios, o MP aponta que Gasparini, na prática, continuou administrando as atividades. Tanto que parte do gado da família estava marcada com "J", uma referência a "Júnior", como Edison é chamado pelos mais próximos.

DEFESA

Em nota encaminhada ao JC na noite desta sexta-feira (27), o advogado Leonardo Magalhães Avelar, que defende Gasparini e seus familiares, afirma que o MP envolveu "indevidamente" a família do ex-presidente na denúncia e diz que "a narrativa acusatória não passa de exaurimento da perseguição política que vem ocorrendo desde o início da investigação".

"A espetacularização da operação se revela em uma denúncia repleta de falácias argumentativas. Não por acaso, a denúncia tem 565 folhas. Fica a pergunta: quem tem razão precisa de 565 folhas para demonstrar seu ponto?", indagou. Ele afirma ainda que a instrução criminal "revelou graves ilegalidades na condução da investigação" e que vai discutir isso nos tribunais superiores.

 

Texto publicado originalmente em JCNET.

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