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'Jogo do Aviãozinho': polícia identifica organização criminosa e diz que Blaze e influenciadores se veem ‘acima da lei’

Nicolas Iory (O Globo)


Investigadores do DEIC afirmam que influencers obtêm ‘renda espúria’ com divulgação de jogos de azar e que a plataforma agiu com ‘indiferença e descaso’ após bloqueio pela Justiça


Investigadores do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC) da Polícia Civil de São Paulo indicaram em relatório que “realmente existe uma organização criminosa” por trás das atividades da Blaze, empresa responsável pelo “jogo do aviãozinho”, que é impulsionado por influenciadores digitais e está na mira da polícia.

 

O documento foi produzido pela 3ª Delegacia de Polícia de Investigações sobre Fraudes Financeiras e Econômicas e compartilhado com a Justiça e com o Ministério Público. O GLOBO teve acesso a trechos da investigação, que corre em sigilo.

 

Reportagem exibida no último domingo pelo “Fantástico”, da TV Globo, mostra que jogos de azar como os que são oferecidos pela Blaze são ilegais no Brasil, mas mesmo assim amealham milhares de apostadores a partir da divulgação de influenciadores digitais nas redes sociais.

 

Na investigação do DEIC, os policiais relataram que “realmente existe uma organização criminosa, estruturada, ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas com aporte financeiro obtido através do lucro exorbitante dessa empresa hospedada em paraíso fiscal, que se utiliza de supostas agências de publicidade (agenciadores) que angariam os influenciadores de renome (...) para promover, publicizar e explorar jogos de azar virtual distribuídos em centenas de modalidades no ambiente virtual (site) da Blaze”.

 

Segundo o relatório, “as investigações prosseguem sigilosamente em estágio avançado para identificar os brasileiros responsáveis nessa estrutura de jogos de azar virtual e lavagem de dinheiro”.

 

Os investigadores se referem aos jogos online como uma espécie de “jogo de bicho virtual” que configura “a mais nova e rentável fraude” da internet no Brasil. Sobre a participação de influenciadores digitais na divulgação desses jogos, a polícia diz que estes obtêm “renda espúria” e que podem estar cometendo crimes de lavagem de capitais e organização criminosa.

 

Sediada em Curaçao, um paraíso fiscal no Caribe, a Blaze teve o site bloqueado por determinação da Justiça em 22 de agosto, medida que veio a ser revogada em 24 de novembro. No período entre as duas decisões, a empresa continuou operando no Brasil com endereços (URLs) alternativos na internet, como “blaze-1”, “blaze-2” etc. Para os investigadores do DEIC, a Blaze agiu com “indiferença e descaso” para “driblar o sistema judiciário”.

 

O relatório das investigações foi apresentado em um inquérito instaurado em 15 de agosto. O escritório de advogados que representa a Blaze informou à Justiça que a empresa tem “mais de 25 milhões de usuários cadastrados no Brasil” e alegou que enquadrar as atividades da plataforma como contravenção “seria o mesmo que criminalizar as condutas das centenas de cassinos existentes em Las Vegas e dos milhares de brasileiros que visitam a cidade todos os anos, uma situação completamente absurda e inimaginável”.

 

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) recomendou no dia 7 deste mês o arquivamento desse inquérito com “relação ao delito de estelionato e aos crimes contra a ordem econômica”. Já em relação às suspeitas de lavagem de dinheiro e da existência de organização criminosa, a promotoria pediu que as investigações sejam acompanhadas pela Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital.

 

Em nota ao Fantástico, também enviada ao GLOBO, os advogados da Blaze destacaram o arquivamento, sem mencionar que outros delitos ainda estão sob investigação.

 

O advogado Leonardo Magalhães Avelar, que representa a empresa, afirmou que "a criação de inquéritos policiais múltiplos sobre tema já enfrentado e arquivado em outras oportunidades não se justifica" e destacou que o Congresso discute a regulamentação de casas de apostas.

"A insistência na realização de investigações criminais sem fundamento concreto traz um desnecessário esgarçamento institucional com os demais poderes que estão regulamentando o tema", completou.
 

Texto publicado originalmente em O Globo e reproduzido por Tribuna de Ituverava.

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